21/04/2026- Mulheres na História – O Lado Feminino Não Contado
Nise da Silveira (1905 a 1999 E.C.)
A edição de abril de Mulheres na História é uma edição especial para nós aqui na MAV. Queremos destacar a importância da contribuição de uma mulher brasileira que revolucionou a história da saúde mental no Brasil: a psiquiatra Nise da Silveira.
Nascida em Maceió, em 1905, foi uma das primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina pela Universidade da Bahia, em uma turma com 150 colegas do sexo masculino. Mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 1930, onde começou a trabalhar no serviço público de saúde.
Durante o governo de Getúlio Vargas, em 1936, foi presa após ser denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas. Passou 18 meses no presídio da Frei Caneca, onde conviveu com o escritor Graciliano Ramos e outras figuras históricas, como Olga Benário. Esse período de afastamento forçado da medicina moldou sua visão crítica sobre as estruturas de poder e exclusão, fundamentando sua abordagem sobre a importância da liberdade nos tratamentos de saúde mental.
Naquele momento, os métodos psiquiátricos envolviam o isolamento em hospitais dos quais muitos pacientes nunca saíam ou onde eram abandonados por seus familiares. Nise defendia um tratamento mais humano, com a inclusão de arte, terapia e contato humano como parte do processo de melhora e cura, opondo-se a métodos como a lobotomia e o eletrochoque.
Ao ser libertada, retornou ao trabalho na saúde, mas recusou-se a realizar os tratamentos convencionais da época. Por isso, foi transferida para o então desvalorizado Setor de Terapia Ocupacional — o que ela utilizou como uma oportunidade para transformar a psiquiatria através de duas frentes principais:
- O Afeto e os Animais: Foi pioneira ao introduzir cães e gatos no ambiente hospitalar como “coterapeutas”. Ela percebeu que o cuidado com um animal ajudava os pacientes a reconstruir pontes de afeto e responsabilidade com o mundo exterior. Naquela época, isso não era comum e ainda não existiam os estudos atuais que comprovam a eficácia terapêutica dos animais.
- A Arte como Expressão do Inconsciente: Criou ateliês de pintura e modelagem. Em vez de ver as obras como simples passatempos, Nise as via como uma linguagem. Ela identificou certos padrões na arte de seus pacientes que a levaram a buscar apoio em Carl Gustav Jung para aprofundar seus conhecimentos no tema. Ela estudou na Suíça por dois períodos, conheceu e trocou experiencias com Jung.
Nise viveu no Rio de Janeiro até sua morte, em 1999, devido a complicações de uma pneumonia. Foi casada com um colega médico com o qual, por decisão de ambos, não teve filhos.
Nise da Silveira é uma das figuras centrais da Luta Antimanicomial no Brasil. Sua abordagem mostrou que o “louco” não era alguém que precisava ser isolado ou “consertado” pela dor, mas alguém que possuía uma vida interior rica e complexa. Seu trabalho continua sendo uma referência mundial para a psicologia, a psiquiatria e a arte contemporânea, reforçando que a cura passa, inevitavelmente, pelo respeito à dignidade humana.
Por que esse trabalho segue sendo relevante?
O legado de Nise da Silveira permanece mais vivo do que nunca, especialmente diante de um cenário onde a saúde mental se tornou um dos maiores desafios do século XXI. No Brasil, os indicadores de bem-estar psíquico têm apresentado uma deterioração preocupante ano após ano. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com a maior prevalência de ansiedade no mundo (9,3% da população) e lidera o ranking de depressão na América Latina.
A relevância desse debate ultrapassa as clínicas e chega ao ambiente de trabalho. Atualmente, os transtornos mentais e comportamentais são a terceira maior causa de afastamentos previdenciários no país. O reconhecimento dessa urgência levou o governo a atualizar a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que agora exige que as empresas incluam o gerenciamento de riscos psicossociais em seus programas de prevenção. Isso obriga as organizações a estabelecerem programas de cuidado que contribuam efetivamente para a redução de transtornos como o burnout, que hoje afeta cerca de 30% dos profissionais brasileiros, segundo a International Stress Management Association (ISMA-BR).
Sofrer de um transtorno mental deixou de ser uma exceção para se tornar uma realidade comum. A história de Nise nos ensina que o que essas pessoas precisam não é de isolamento ou estigma, mas de acompanhamento, compreensão e um ambiente acolhedor. Ao resgatarmos sua trajetória na edição de abril da Mulheres na História, reforçamos que o tratamento humanizado e a integração do indivíduo à sociedade e aos seus afetos continuam sendo as ferramentas mais poderosas para a cura e para a construção de organizações mais saudáveis e inclusivas.
Acompanhe nossa série! Até a próxima história!
Referências:
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Nise_da_Silveira
- OMS
- Ministério do Trabalho e Emprego (TEM)
- Ministério da previdência social
- International Stress Management Association (ISMA-BR)